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Lembro-me bem da dona Silvia, que chegou ao consultório carregando o pequeno Lucas, de quatro anos, com uma expressão de urgência. “Doutor, ele vai crescer com o pé torto? Veja como o pé dele ‘derrete’ no chão”, ela disse, enquanto o menino corria pela sala, alheio a qualquer preocupação. O que Silvia via era o que chamamos tecnicamente de pé plano valgo fisiológico, uma condição que, na grande maioria das vezes, faz parte do cronograma natural do desenvolvimento humano, mas que ainda tira o sono de muitas famílias. O pé de uma criança não é uma versão miniatura do pé de um adulto. Ele é uma estrutura em constante metamorfose. Nos primeiros anos, existe uma camada de gordura na região da sola que preenche o arco, dando aquela aparência de “pé fofinho”.
Além disso, os ligamentos são extremamente elásticos. Essa frouxidão ligamentar faz com que, ao pisar, o arco longitudinal medial — aquela curvinha interna do pé — desapareça sob o peso do corpo. A pergunta de um milhão de dólares no consultório de ortopedia e traumatologia é: quando devemos parar de observar e começar a agir? Um teste simples que costumo fazer diante dos pais é pedir para a criança ficar na ponta dos pés. Se, ao fazer esse movimento, o arco “mágicamente” aparece e o calcanhar vira para dentro, estamos diante de um pé plano flexível.
Esse é o cenário ideal. É um sinal de que a biomecânica do pé está preservada e que aquela anatomia vai se definir conforme a musculatura se fortalece e a gordura plantar diminui, processo que pode durar até os oito ou dez anos de idade. O sinal de alerta acende quando o cenário muda. Se a criança começa a reclamar de dor persistente no calcanhar ou no arco, se ela pede colo excessivamente durante passeios curtos ou se demonstra um cansaço desproporcional após atividades físicas, precisamos investigar. Existe uma diferença abismal entre o pé chato que é apenas uma característica anatômica e o pé plano rígido. Este último, muitas vezes causado por uma coalizão tarsal (quando dois ossos do pé nascem “grudados”), não desaparece ao ficar na ponta dos pés e pode exigir intervenções que vão desde fisioterapia ortopédica até, em casos selecionados, cirurgia do pé e tornozelo.